é no açoite e no grito
De todas as pretensões que almejo
na vida nenhuma delas é tão forte quanto a de ser um outsider, em todos os
aspectos. O que, de certa forma, me permite vagar por certos nichos sociais de
uma maneira levemente despojada, ou é essa a falsa impressão que tenho. Bem, o
mundo é cheio de falsas impressões. Desde como apreendemos o conhecimento na
mente e da maneira que isso se sucede até a aplicação técnica na realidade.
Ora, essas falsas impressões, causadas muitas vezes por uma cegueira
generalizada em relação ao eu, são talvez a principal fonte de energia das
forças conservadoras que começam novamente a sufocar o mundo geopolítico.
Vivemos em “tempos interessantes”, e não há nada pior para um japonês do que
viver em tempos assim. Ouvi essa expressão em um semestre letivo onde tudo ao
meu redor estava enevoado e foi proferida por um professor de religiões
orientais que ministrava as aulas com a paciência de um monge. Os japoneses
odeiam tempos interessantes, essa dupla de palavras sugere mudanças, conflitos,
incertezas. Nada está predisposto, nada está fixo, nada caminha para algum
lugar em específico. As opções são várias, que se apontarmos uma rota nos
perderemos no caminho. E o mais engraçado de toda essa situação é que as
pessoas ao meu redor parecem ter muita certeza do lugar que habitam, do que
fazem para viver e do que se passa pelo mundo. Afirmam suas ideologias com a
demagogia de um cadete recém adentrado ao sistema.
Parou-se de se questionar, se é que
alguma vez essa foi a marca da sociedade moderna. Há milhares de milhares de
anos os primeiros homens caminhavam sobre a terra desconfiados de tudo, com
seus sentidos atentos ao ambiente que os circundava, a incerteza era sobre caça
e sobrevivência, nada mais. Um ambiente físico e palpável que foi sendo
manuseado com as técnicas adquiridas que eram a todo o momento postas à prova.
Hoje caminhamos com nossos caros tênis de solado macio sobre um eterno tapete
de concreto circundados por outros como nós e cada um mergulhado na sua própria
concepção de mundo provida para além da cultura que estamos inseridos, para a
tela de um mini computador que está em nossas mãos. O provedor de certezas do
século XXI, sem contestação, uma aceitação ignóbil de qualquer informação que
nos chega pelos nossos amigos virtuais. Como seria para esses homens que
viveram em comunidades extremamente dependentes entre si depararem-se com o
vulgo homem moderno que encomenda comidas por cliques e tem certeza sobre o mundo
onde vive? Bem, ao contrário dos meus companheiros de espécie, e assim como
outros com tais pretensões iguais a mim, espero livrar-me das certezas e
continuar a divagar nesse emaranhado confuso desses tempos tão interessantes.

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