...de semana



Fui fazer uma consulta dentária no posto de saúde do bairro, dia frio, nublado, sete horas da manhã. Arrastei-me até lá no automático e só acordei com o barulho dos apetrechos do dentista, barulhos desagradáveis e sinistros, como um toque de despertador. Atentei-me então para a conversa espaçada que acontecia entre o dentista e sua assistente. Eu, com a boca aberta, era o que menos falava.
- Um descanso na segunda é melhor – disse a assistente ao passar uma broca ao dentista, que rebateu: - Mas sexta está logo aí, é um bom dia para um feriado – enfiando a broca na minha boca.
-É... - Assentiu ela como se de alguma maneira o debate fora ganho. Por ambos é claro, pois se há a possibilidade de um descanso entre o fim de semana não tem questionamentos.
Após a torturante consulta, saindo dali percebi que existem dois tipos de pessoas, que nesse caso são delimitadas muito distintamente: as pessoas da sexta e as pessoas da segunda-feira. Aquelas que preferem um feriado na sexta querem a antecipação do prazer, enquanto aqueles que preferem o feriado na segunda querem adiar o sofrimento (de ter que voltar a trabalhar). O quão maravilhoso não é fazer da quinta-feira uma sexta, ou da segunda um domingo: Quero o fim de semana logo! – pensa o dentista. Trabalho na sexta pra meu fim de semana durar mais e domingar a segunda. – diz pra si mesma a assistente.
Ora, é um feriado oportuno, se fizessem um plebiscito a população se dividiria, como em qualquer dicotomia, em qualquer um contra um. Haveria atrações nas quintas para quem votasse no feriado da sexta, e um churrasco estendido para quem votasse segunda. A votação prometeria ser acirrada, sem nenhum ganhador óbvio.

Mas claro que no final o trabalho volta a te lembrar pelo som agudo do seu despertador que está na hora de levantar, tudo volta ao ‘normal’, os defensores da segunda e da sexta acordam juntos para baterem ponto na mesma empresa, e aguardam ansiosamente a hora de sair. 

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