Estética dos afetos 3

Depois de duas xícaras de café em um curto intervalo de tempo, coloco meu corpo no automático para o trabalho, o caminho não é longo, coisa de dois quarteirões, poucos minutos de caminhada. O trajeto conheço bem, meu corpo me carrega sem que eu perceba, ignorando tudo ao redor traço uma linha e sigo oscilante. Faço, fiz e farei esse caminho inúmeras vezes, certas peculiaridades do local e do horário eu já conheço bem, afinal perdi as contas. Sendo algo por mim tão conhecido e ordinário nada me espanta e me surpreende, porém em raros dias vejo tudo com uma nova ótica: uma janela com plantas em algum prédio que não sabia que estava ali, uma árvore que floresceu e nem vi, o senhor da esquina com seu semblante de dor acende um cigarro.... Algo sempre nos tira do trilho, ergue nossos olhos para as coisas ao redor, modifica e ressignifica nosso caminho. Num dia comum de outono, a meia luz da manhã mostrou-me seu sorriso distinto, visceralmente entrei em colapso, saí do meu trajeto conhecido, caí sob você, embriaguei-me de seus traços, fui atravessado pelo seu olhar e...acordei. Meu corpo continuava me arrastando continuadamente anos a fio,  e eu seguia, dessa vez,  por outros milhares de caminhos.

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