Identidade
Hoje atendi uma senhora de 78 anos de idade, são
mais de 28.000 dias rodando em torno do sol. A fim de preencher um formulário
para ela solicitei seus documentos, frase essa que repito ao desgaste ao longo
do dia: ‘Cpf e RG por favor.’ Não tenho nem metade da sua idade, e vejo nos
traços da sua foto 3x4 anos de luta e sofrimento, foto essa que foi tirada dois
anos antes do meu nascimento. As linhas temporais me saem da cabeça ao perceber
algo estranho: no CPF um nome, no Rg outro nome, e a assinatura um terceiro
nome. Todos com nomenclaturas semelhantes, mas completamente distintos.Foram
dois erros tipográficos que agora a acompanhavam, mas que de certa maneira não
a representavam. Perguntei com ligeira inocência: Qual o nome da senhora? Pra
minha surpresa tinha surgido um quarto nome, este de fato, depois de passar
pelos crivos do estado, era o seu eu. “o nome que minha maezinha deu pra
mim...”
Sim, a 78
anos atrás... o tempo consome histórias, deixa no papel notas inverossímeis
sobre os outros. Quem era afinal aquela senhora se não o nome que ela
apresentava ao mundo? Pois o mundo tinha mostrado sua negligência sobre ela, ao
passo que imaginei que após sua morte ela não estaria ali para responder mais
aquela pergunta ‘qual o seu nome?’ , ‘quem é você?’. Em seu óbito o escrivão
poderá escolher entre os três nomes da senhora gravados no papel, mas a sua
verdadeira identidade terá ido consigo para longe daqui. Nada nos representa mais que nossa identidade
de nós mesmos, RG’s são pedaços sem significado frente ao que representamos a
nós mesmos. Os documentos dessa amável senhora não apresentam quem ela é,
apenas ela pode dizer isso, e ela dizia, imaculadamente paciente ela sabia quem
era.

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