Capítulo zero de um livro de contos
O mundo era grande e assustador, e ela não entendia como as pessoas funcionavam. Seu recanto era a TV da sala onde morava com a mãe, nos desenhos sempre era mais fácil distinguir os bons dos maus, e ela se reconfortava com isso.
Poderia viver assim pra sempre, se a mãe não precisasse trabalhar fora. Onde iria ficar agora? Era apenas uma criança, que gostava de conversar com os desenhos do que com pessoas. Percebeu que sua vida estava virando uma dessas histórias de aventura que sempre assistia e que ia enfrentar coisas ruins pela frente.
No primeiro dia de trabalho a mãe a colocou no banco de trás do carro e a levou por caminhos que nunca antes tinha visto. A paisagem de concreto foi se transformando aos poucos em árvores gigantescas e assustadoras, com pássaros que pareciam encará-la. Estava com medo, e percebeu que isso era só o começo. Quando o carro parou em frente ao um pequeno portão de madeira, a mãe a desceu, abriu o portão e seguiram por um pequeno caminho que levava a uma casa, de primeira vista aconchegante. Era isso que mais temia a pequena. Sua mãe tocou a campainha que parecia o som de um urro de pavor. A porta se abriu e logo apareceu um senhora de cabelos brancos usando um vestido verde florido com estampas amarelas e sorriu para ela. Mas a pequena não conseguia olhar de volta, temia que as feições da velha pudessem mudar e se transformar em algum tipo de bruxa. A mãe lhe deu um abraço e disse que voltada mais tarde para buscá-la, apresentou a senhora para a menina que estava tão imersa em pensamentos que não ouviu nada do que elas conversaram.
Assim que a mãe entrou no carro queria correr até ela, queria, mas não conseguia, parece que não tinha forças pra isso. Foi convidada a entrar e o fez com muita relutância, a casa era cheia de fotos antigas e quadros de paisagens melancólicas, e a primeira coisa que procurou foi uma TV. E como que lendo seus pensamentos a velha lhe disse que sua TV tinha ido para o conserto e demoraria alguns dias para voltar. E agora? O que iria fazer ali sem seus amigos mais próximos?
Então foi conduzida a um quarto aos fundos com uma janela que dava para um pequeno pomar, sentou-se na cama que tinha um colchão de molas antigo que fazia muito barulho. A velha sentou-se ao seu lado e começou a contar histórias sobre seu filho, e de como ele se parecia com ela quando criança, que vivia imerso em seu pequeno mundo e era muito tímido. A pequena se identificava cada vez mais com o que lhe era contado em um tom sereno e doce, queria conhecê-lo. Continuando sua narrativa a velha mãe lhe disse que cada dia que passava seu filho mergulhava no próprio mundo e que seria difícil voltar depois, e arrumou uma solução para ele. A menina arregalou os olhos como se fosse ouvir uma coisa fantástica a seguir, imagine só, algo melhor que seus companheiros de desenho? E foi nessa hora que a velha levantou-se fazendo as molas do colchão rangerem e se aproximou de uma mesa coberta por um lençol, pediu a pequena que se aproximasse e retirou o lençol deixando à mostra um antiga máquina de escrever já com papel em branco. Agachou-se ao seu lado e sussurrou pra ela que por ali ela viajaria por um lugar melhor que a TV, que ali poderia usar toda sua imaginação e criar coisas grandiosas. Acomodou a pequena na cadeira em frente a máquina, ensinou-lhe pacientemente como usá-la e deixou-a então sozinha.
Ela começou a digitar letra por letra e adorou aquilo, como mágica palavras iam se formando. Então percebeu que naquela mesa, naquela cadeira, e com aquela incrível máquina de escrever ela teria a maior aventura da sua vida...


Tem continuação?!
ResponderExcluirGostei muito.
Obrigado Desa! em relação à continuação, poderei criar algo sim, mas acho que a magia está em deixar o final aberto. Mas pensarei em um continuação.
ExcluirÉ verdade
ExcluirAlgumas histórias não precisam de continuação, mas quando se tem um mente fértil demais imagina milhões de coisas que poderiam acontecer, talvez seja esse o sentido de deixar um final aberto, fazer as pessoas pensarem .
Espero a continuidade desde 2013
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